26 de mai de 2018

[Resenha] Fahrenheit 451

em 26 de mai de 2018

7 comentários
Livro: Fahrenheit 451
Autor: Ray Bradbury
Editora: Folha de S.Paulo
Gênero: Distopia
Páginas: 168
Nota: ⭐⭐⭐⭐
Queimar livros foi um recurso usado em tempos sombrios, como o da Santa Inquisição e o do nazismo, para eliminar ideias resistentes à crença sanitária no pensamento único. No mundo futuro concebido por Ray Bradbury (1920-2012) em Fahrenheit 451, ler tornou-se um ato subversivo e os que insistem em ter pequenas bibliotecas às escondidas podem virar cinzas junto com seus volumes. O devaneio, a poesia, a filosofia e a ficção foram extintos porque não se admite perder tempo com algo que, em vez de puro entretenimento, ofereça inquietação e angústia. Como toda ficção científica, essa distopia publicada em 1953 emite os sinais negativos da época em que foi escrita. Mas, se a redução das ideias ao binarismo, o desprezo ao intelectual, o fluxo de informações num nível inassimilável e a suspeita de qualquer sinal de melancolia já eram considerados fatores de risco em meados do século passado, nossa civilização anestésica fez do futurismo de Bradbury um gênero bem mais próximo do realismo.

Um dos maiores desafios da minha vida literária é me instigar a ler clássicos durante o ano. E motivada por um dos desafios da Maratona Literária de Outono, enfim tirei da estante Fahrenheit 451. Surpreendida positivamente com o conteúdo, é um tipo de distopia que nos faz pensar como seria o mundo sem o conhecimento, sem livros?!

Guy Montag tem prazer da sua profissão de bombeiro, cuja função nessa sociedade imune a incêndios é queimar livros e tudo que diga respeito à leitura. Quando Montag conhece Clarisse McClellan, uma menina de dezesseis anos que reflete sobre o mundo à sua volta e que o instiga a fazer o mesmo, ele percebe o quanto tem sido infeliz no seu relacionamento com a esposa, Mildred. Ele passa a se sentir incomodado com sua profissão e descontente com a autoridade e com os cidadãos. A partir daí, o protagonista tenta mudar a sociedade e encontrar sua felicidade em um governo totalitário, que proíbe qualquer livro ou tipo de leitura, prevendo que o povo possa ficar instruído e se rebelar contra o status quo. Tudo é controlado e as pessoas só têm conhecimento dos fatos por aparelhos de TVs instaladas em suas casas ou em praças ao ar livre.


Foi impactante o quanto uma leitura de 1950 parece atual. Eu que possuo uma grande dificuldade de discernir incógnitas colocadas ao longo de uma narrativa de um clássico, captei rapidamente o papel que este livro tem com os leitores. Em poucas páginas, com acontecimentos eletrizantes que mudam a todo instante, um mundo sem livros — consequentemente sem fazer o ser humano ser tornar pensante — percebemos o que essa ideologia pode ocasionar.

Tive dificuldades em alguns pontos com a escrita formal sim, principalmente porque o autor tende para um desenvolvimento baseado em descrições de locais e elementos, no entanto ao engajar nas aventuras e nas cenas acaba passando despercebido. É um enredo rápido, que transmite seu desenvolvimento de modo acelerado, mas em nenhum momento se perde. É um universo distópico interessantíssimo, dividido em três grandes capítulos.

"Ninguém mais presta atenção. Não posso falar com as paredes, porque elas estão gritando para mim. Não posso falar com a minha mulher; ela escuta as paredes. Eu só quero alguém para ouvir o que tenho a dizer. E talvez, se eu falar por tempo suficiente, minhas palavras façam sentido."

Falando do personagem principal, Montag, em grande parte ele foi uma incógnita na minha opinião. Consegui sentir suas preocupações e dúvidas, porém algumas atitudes não foram as ideais. Não o julgo porque se estivesse na sua situação não sei o que faria. Foram drásticas, entretanto acredito que aqui esteja a "mágica" da distopia, de poder fazer o que quiser, por isso não reclamo muito. Suas indagações, inquietações chegam a quem está lendo de modo claro, o que ajuda a perpassar a história no seu ponto de vista, além de uma identificação pessoal.

Clarisse aparece em poucos momentos, e mesmo assim deixa grandes lições — até porque muda as atitudes de Montag. Senti que poderia ter sido mais explorada, trabalhada. Ela praticamente "some" da obra e deixa a indagação para quem está lendo do que realmente aconteceu. De qualquer maneira, cumpre seu papel principal que é questionar as atitudes da queimação de livros, e um adendo é que no posfácio desta edição o autor fala um pouco dela, e você consegue até entender o motivo da protagonista ter "desaparecido" — todavia ainda queremos respostas haha.


Pequenos pontos de ficção científica caíram muito bem, além do verossímil que se conecta com a atualidade. O escritor fala até de uma inspiração em Conan Dolye para um objeto específico, o que achei fantástico. O exemplar é algo que você inquire, e muito. Difícil não fazer uma comparação com a conjuntura moderna quando captamos como houve essa banalização do conhecimento, como tudo isso se originou e o porquê da profissão bombeiro é queimar livros. Na civilização de Montag tudo foi destruído para não ter divergências, já que essas ficaram incontroláveis e perturba todos. Nota-se uma mera semelhança certo?!

De uma forma geral, impacta o quanto Ray foi um visionário e pode-se concluir que Fahrenheit é atemporal. Me vi encantada e querendo mais de uma volume que cheguei a duvidar se iria gostar, rs. É um desafio para aqueles que estão acostumados com uma linguagem mais coloquial, contudo que vale a pena tentar. Recomendadíssimo não só aos fãs de distopias e também para aqueles que querem sair da zona de conforto com algo mesclado à fantasia distópica.


"Bem, afinal de contas, estamos na era do lenço descartável. Assoe seu nariz numa pessoa, encha-a, esvazie-a, procure outra, assoe, encha, esvazie. Cada um está usando as fraldas da camisa do outro. Como torcer para o time da casa quando não se tem nem um programa nem sabemos os nomes? Por falar nisso, que camisa estão usando quando entram em campo?"

Na parte física, existe vários edições/versões do livro, afinal estamos falando de um clássico. A minha é da coleção da Folha de S. Paulo, e confesso que comprei pois estava barato na época — e por ser em capa dura. A aquarela da capa tem total ligação com o que se trata o livro. Um ponto negativo é que senti falta de uma sinopse. Na parte de trás temos a opinião de um crítico do jornal, e somente. A diagramação é confortável de ler e não possui nenhum erro ortográfico ou de revisão aparente. Tem a presença de um posfácio e um coda. Hoje sabendo o quanto gostei, compraria uma edição melhor até justificando que existe opções mais bonitas. A narrativa é feita em terceira pessoa.

Juro que se alguém me perguntasse no início de 2018 se leria Fahrenheit 451, não saberia responder — aliás não saberia responder até o momento que saiu o desafio na #MLO2018. Com uma motivação maior que é o lançamento do filme adaptado, me auto surpreendi. Não sei ainda se perdi o certo receio com leituras de grandes aclamações, mas dei o primeiro passo. Espero que tenham gostado!

E vocês, conheciam Fahreinheit 451, já tinham lido? Tem vontade de conhecer? Deixa nos comentários! 

7 comentários :

  1. Achei essa edição tão lindinha.
    Adorei essa capa <3
    Ainda não li a obra, mas pretendo fazer isto ainda esse ano.. será que consigo? rs o tamanho me desmotiva um pouco.

    Beijos
    Sai da Minha Lente

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  2. Oi, tudo bem? Sabe que apenas na faculdade é que fui me interessar pela literatura clássica? Antes tinha aquela obrigação de só ler o que caía no vestibular, então, eu saía disso com a literatura contemporânea. Aí, na faculdade descobri leituras incríveis, inclusive bem fora da curva, como a literatura judia e a do oriente médio. Este livro ainda não li, mas tenho lido resenhas dele que me fazem muito querer lê-lo, com certeza. Gostei muito da sua, acho que seria bem ao estilo da minha. Fico feliz que tenha gostado do livro, acho muito importante literatura social/distópica, porque nos aleta para coisas que, às vezes, já acontecem e não nos damos conta. Adorei!

    Love, Nina.
    www.ninaeuma.blogspot.com

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  3. Oiieee

    Esse foi um livro que tentei ler em uma Leitura Coletiva há um ano atrás mas pra mim, infelizmente, a leitura não fluiu nada e acabei tendo que desistir. Fico feliz em saber que te agradou, realmente ler clássicos é sempre um desafio e a gente acaba se sentindo intimidado antes mesmo de começar...
    Beijos

    www.derepentenoultimolivro.com

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  4. Olá
    Não leio muito distopias, pois não tenho boas indicações ( infelizmente ) mas essa parece uma boa pedida. Li sua resenha e me veio a cabeça o filme O Livro De Eli, em que na cabeça de uma pessoa, um unico livro o faria ter o controle de todos os restantes dos habitantes...
    Assim como o intuito dos livros pode gerar uma rebeldia nessa distopia...
    Anotei a dica e espero poder ler.
    Bjus

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  5. Olá!
    Eu não conhecia esse livro, mas esse nome não é esquisito mas por outros motivos. Sua resenha está maravilhosa e como não sou muito conhecedora de ficção científica e distopias, aproveito para anotar as dicas.
    Vou colocar na minha lista de leituras para conhecer em algum momento, primeiro preciso terminar as que estou fazendo no momento.
    Adorei as fotos!
    Beijos!

    Camila de Moraes

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  6. Olá não sei o motivo mais não sabia desse clássico e fiquei curiosa para realizar a leitura apos ler a sua resenha dica anotada

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  7. As histórias de distopias são as minhas favoritas, e isso não é exceção. O filme dos anos 60 é muito bom. Outra história que eu recomendo é o gênero Blade Runner 2049. Na minha opinião, foi um os melhores filmes de ficção cientifica que foi lançado. Gostaria que vocês vissem pelos os seus próprios olhos. Se ainda não viram, deveriam e se já viram, revivam a emoção que sentiram. O filme superou as minhas expectativas, o ritmo da historia nos captura a todo o momento. Eu recomendo totalmente.

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