Livro: Pessoas Normais
Autora: Sally Rooney
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 264
Gênero: Romance
Nota: ⭐⭐⭐⭐ + 0,5
Na escola, no interior da Irlanda, Connell e Marianne fingem não se conhecer. Ele é a estrela do time de futebol, ela é solitária e preza por sua privacidade. Mas a mãe de Connell trabalha como empregada na casa dos pais de Marianne, e quando o garoto vai buscar a mãe depois do expediente, uma conexão estranha e indelével cresce entre os dois adolescentes – contudo, um deles está determinado a esconder a relação. Um ano depois, ambos estão na universidade, em Dublin. Marianne encontrou seu lugar em um novo mundo enquanto Connell fica à margem, tímido e inseguro. Ao longo dos anos da graduação, os dois permanecem próximos, como linhas que se encontram e separam conforme as oportunidades da vida. Porém, enquanto Marianne se embrenha em um espiral de autodestruição e Connell começa a duvidar do sentido de suas escolhas, eles precisam entender até que ponto estão dispostos a ir para salvar um ao outro. Uma história de amor entre duas pessoas que tentam ficar separadas, mas descobrem que isso pode ser mais difícil do que tinham imaginado.
Pessoas Normais foi um livro surpreendente por ser tão cru e realista com os desdobramentos e descobertas do primeiro amor. É uma leitura sensível, que também tira da zona de conforto, mas cumpre seu papel de nos acalentar e ponderar os assuntos inseridos.
Connell é inteligente, popular e uma estrela do futebol em sua escola. Marianne também é inteligente, mas não tem amigos próximos, sendo constantemente criticada por sua aparência além de fofocarem sobre ter problemas mentais. A mãe de Connell é doméstica e trabalha para a família de Marianne e desse modo os dois adolescentes se conhecem e desenvolvem uma conexão interessante. Connell costuma buscar sua mãe no trabalho e assim surge oportunidades de conversar com a menina, mas ele definitivamente não quer que seus amigos da escola saibam que ele possui qualquer sentimento por ela. Então, ele decide não reconhecê-la na escola ou em qualquer outro momento, exceto quando estão sozinhos. E ela está bem com isso. A história se alterna entre as perspectivas de Connell e Marianne e os acompanha ao longo de alguns anos, onde tudo acaba invertendo, e eles percebem que a vida é um jogo complexo.
O desenvolvimento foi meio estranho inicialmente por conta da narrativa dos diálogos ser diferenciada — não são separadas por travessões ou aspas, sendo praticamente um texto corrido junto das descrições. Isso fez com que eu demorasse a mergulhar no conteúdo de cara, entretanto passado essa primeira barreira, o enredo se mostra impactante por ser tão similar com uma realidade humana. É fácil se identificar e entender tudo que os personagens estão passando porque seus questionamentos são críveis. Sally Rooney traz uma alta dose de vivência que incomoda, desconforta, que nos faz refletir ao mesmo tempo que encanta. A impressão é que seria um romance dentro dos padrões clichês, contudo há algo mais.

Vi a questão da existência de um bom diálogo, de um entendimento próprio a respeito de seus sentimentos serem fundamentais para a construção de um relacionamento sólido, e acho importante isso ser ressaltado. Os personagens passam por situações que poderiam ser evitadas se houvesse clareza no que querem transmitir e no que verdadeiramente sentem. Porém, se não fosse também por essas transtornos, talvez o amadurecimento não acontecesse. Nada mais humano do que ter esse turbilhão de emoções confusas e que nos faz duvidar de como agir.
Marianne e Connel são protagonistas complexos pois possuem uma profundidade psicológica que nos conecta. A desordem de pensamentos e características expostas chama atenção porque é perceptível o quanto se assemelham a uma confusão que um jovem adulto sente ao tentar encontrar seu lugar no mundo. É comum depararmos com ações que eles se autoavaliam se foi correto ou não, e muitas das vezes são dúbios quanto ao que pensam e agem. Comigo ocorreu uma identificação pessoal porquanto muitas das indagações são reflexos do que penso do comportamento social, e é gratificante acompanhar a evolução deles quanto a isso — embora na trajetória como um todo, possam ter se perdido e desviado do caminho constante vezes.
"Poderia contar qualquer coisa a seu respeito, até as coisas estranhas, e ela jamais as repetiria, ele sabe. Estar sozinho com ela é como abrir uma porta para fora da vida normal e fechá-la depois de passar. Não se sente intimidado por Marianne; ela é, na verdade, uma pessoa bem descontraída, mas ele tem medo de ficar perto dela por causa do jeito confuso com que se vê agindo, as coisas que diz e que não diria normalmente."
A obra aborda vários assuntos atuais e que conversam com as problemáticas enfrentadas no século XXI — como depressão, suicídio, condutas e paradigmas sociais — por isso a história nos desestabiliza. Ainda que seja pontos que venham em segundo plano, eles complementam o romance de forma a deixá-lo cheio de camadas pertinentes. Atentem-se para possíveis gatilhos com suicídio e transtornos psicológicos.
O final chega de forma abrupta — sendo o único fator que não gostei da leitura — e encerra um ciclo onde acompanhamos as suas mudanças internas de dois jovens. Após finalizá-lo eu parei um pouco e tentei analisar todas as minhas emoções ao longo das páginas, e conclui que foi uma obra além da minha concepção preliminar. E isso é bem satisfatório visto que esperava somente amenidades.
De uma forma geral, recomendo! Aliás, existem pessoas normais? O título é uma grande sacada uma vez que nos indaga o significado de normal. Não creio que seja um contexto fácil para todos os leitores — e as opiniões realmente são divergentes entre o amei ou não — contudo, acho que vale a pena tentar, principalmente se é fã do gênero.
Na parte física, não tenho muito o que descrever pois li em formato digital. O e-book apresenta boa diagramação e foi confortável de ler. A narrativa é feita em terceira pessoa pelos pontos de vistas da Marianne e Connel. Espero que tenham gostado! E agora me digam: conheciam Pessoas Normais? Leriam? O que acharam da proposta? Deixa nos comentários!